SOLIDÃO
Padre Hugo Martins
Paróquia de Padre Hugo

SOLIDÃO
Há mais de uma vintena de anos que esta minha amiga vive sozinha numa casa emprestada por um sobrinho radicado nos Estados Unidos da América.
Este visita a sua tia uma vez em cada ano, porque a distância é grande, as viagens são caras e o tempo de férias é curto. Além de afectos e alguns “mimos”, traz-lhe ainda medicamentos genéricos vitamínicos, para lhe prolongar esta já longa velhice. A parca reforma não lhe dá para as despesas de farmácia.
A sua casa é um sexto andar virado a nascente. Aí passa horas seguidas à janela pensativa, virada para este ponto cardeal, o que sempre lhe dá alguma esperança na monotonia da vida. Naquele lugar encontramo-la sentada e dobrada pelo peso dos anos, às vezes encostada a uma velha bengala, que a ajuda a caminhar na navegação das horas, dos dias, dos meses, sem grandes sonhos e horizontes. As janelas ao poente, onde se veria o pôr-do-sol, para esta octogenária já só são sombrias e tristes.
Ao seu lado habitava uma vizinha, já de longa data sua conhecida, preocupada com causas sociais e humanitárias e que lhe dava imenso apoio, mas em face dos problemas de saúde teve necessidade de se ausentar para fazer demorados tratamentos em Lisboa.
Muitas vezes pergunta quando volta: “faz-me tanta falta essa senhora, que me ajuda e apoia, que tem tempo para me ouvir, para conversar, sabe muito bem lidar com as pessoas, mas nunca mais regressa para junto de mim.”
A sua memória está pontuada de nomes e geografias, de avós, de pais, familiares, amigos, de terras como a Soalheira, Fundão, Castelo Branco, Alpedrinha, Covilhã, Lisboa, Estados Unidos da América, Canadá… de quintas agrícolas, cansada de tanto servir e de tanto trabalhar.
Grande parte dos familiares e amigos já partiu, os que restam estão em lares, casas de repouso, locais onde tristemente se espera a morte, lugares sempre à espera de mais uma vaga, porque à porta está presente uma longa lista de pedidos.
Diz-me que ainda tem forças para andar, para estar de pé, para estar junto à janela, para receber as visitas diárias das funcionárias da Santa Casa da Misericórdia, sempre numa correria porque os utentes são muitos e as horas escasseiam.
Não quer, nem pensa em ir para lares, porque aqui, mesmo assim, tem a sua liberdade, vivendo alguma felicidade apesar de estar só.
Enquanto lhe for possível, recusa-se a ficar enclausurada em “caixas fechadas”, muitas vezes fornecedoras de aborrecimentos, de outras solidões que enfraquecem vivências e emoções.
Todos já vivemos e sentimos que na sociedade actual é difícil encontrar melhores alternativas. A vida é um caminho, um jogo, uma corrida por pontos em que muitas vezes se ganha e outras se perde. Quando se perde muitos pontos a única solução é sair do jogo. Talvez aqui comece uma das maiores violências que a modernidade impõe, por não recriar novas formas de relações, novas formas de viver, novas formas de reconhecer os idosos.
Muitas vezes a velhice é um filme de terror que diariamente alonga a metragem.
Ao entrar na sua morada, vemo-la rodeada de muitos santos e santas, mas não lhe falam nem a ouvem… Só imagens mudas e quedas nos espaços vazios…
No hall encontra-se a imagem destacável de Nossa Senhora de Fátima ↗, com uma lamparina acesa, talvez por ser o mês de Maio. Por perto a imagem de Santo António, o santo casamenteiro: apesar de lhe ter feito novenas e promessas, nunca lhe arranjou um namorado, para que um dia casasse e pudesse ter família. Por esta razão o seu estado civil é de solteira e de boa rapariga.
Já tem muitos cabelos brancos, rugas na face, mãos calejadas, mas transposta dentro de si alegria de viver, transmitindo a sabedoria sempre surpreendente das universidades desconhecidas.
Está grata a Deus por estar viva… e eu dou-lhe graças por isso!
António Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Junho/2019

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"A Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes."
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