# UM BARBEIRO DAS MINAS DA PANASQUEIRA

- **Autor:** Padre Hugo Martins
- **Data:** 2015-05-22T20:17:55+00:00
- **Categoria:** António Alves Fernandes
- **URL Original:** https://padrehugo.com/blog/um-barbeiro-das-minas-da-panasqueira

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# UM BARBEIRO DAS MINAS DA PANASQUEIRA



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### Mal entramos na sua Barbearia, junto à Praça de Táxis de Tortosendo, ficamos a saber que o dono da casa trabalhou nas Minas da Panasqueira. Nas paredes vemos fotografias de paisagens das Minas e dos mineiros; um relógio feito pelo próprio (as pedras do minério sinalizam as horas); um gasómetro; e um quadro com pedras de volframite, quartzo, pirites, nica branca, galena, marcassite, cassiterite, siderite, apatite…Também não é fácil adivinhar que o clube do coração deste Homem é o Benfica, pois uma águia sobrevoa todos os minérios. No entanto, mostra afeto pelo Sporting da Covilhã e pelos seus ídolos de há cinquenta anos.


### Depressa nos diz que um cliente é um amigo e não um número, e por isso deve ser sempre recebido com simpatia e profissionalismo. Uma máxima que até em algumas Paróquias deviam ter em atenção. O nosso Barbeiro sem ter cursos superiores ou teológicos, sabe muito…


### Estamos, pois, numa Barbearia acolhedora, um espaço recuperado onde o estilo antigo se conjuga muito bem com o moderno. Há uma simbiose perfeita, com um olhar para o passado expresso na vitrina da barbearia, onde encontramos diversos objetos da arte de bem barbear. Aí estão expostos como peças de Museu.


### Nasceu na Bendada (Sabugal) há quase oito décadas, filho de Alfredo Augusto Dinis, um ex-combatente da I Grande Guerra. Conta que estava nas trincheiras das Flandes (França) quando num raide das tropas alemãs foi gravemente ferido e o comandante morto. Os ferimentos obrigaram-no a uma recuperação de um ano. À Bendada chegou a notícia do seu falecimento, mulher e familiares vestiram luto, tocaram os sinos sons fúnebres e ainda chegaram a celebrar missas pela sua alma.


### Um dia apareceu na sua aldeia natal, o morto vivo, o romeiro, o militar, a quem já tinham encomendado a alma, já estaria no paraíso, porque o inferno teve-o na guerra.


### Com cinco filhos para alimentar e educar, sem proveitos numa agricultura familiar de sobrevivência, o pai encoraja-se e seguiu para as Minas da Panasqueira. Ao fim de um ano, em 1946, fixaram residência no coito mineiro, onde a administração inglesa lhes deu casa, luz e água. A mãe dedicava-se à administração da casa e da costura, o marido foi para o interior da mina.


### Um dos seus filhos, o nosso Homem Virgílio Dinis, fez a quarta classe e, em 1951, com apenas 14 anos, entrou para os Quadros da Beralt, através do Eng.º Wilson. Foi varrer as ruas do Bairro: ”naquele tempo era varredor, hoje seria técnico de limpeza.” Havia o Bairro dos Mineiros e o da Administração e Pessoal Técnico. Os melhores, os mais bem apresentados, iam prestar serviço a este último. Naquele tempo ganhava quarenta escudos. Além deste salário, sempre caiam umas gorjetas, umas gratificações, uns mimos, uns bolos.


### Nas horas vagas, ia para uma Barbearia como aprendiz.


### No final de um ano, foi para as correias escolher o minério, mas nunca deixou a aprendizagem de barbeiro. Não tardou a chegar às oficinas.


### Aos 16 anos foi chamado a fazer provas de barbeiro, tendo sido selecionado para desempenhar a missão no Hospital dos Mineiros, e só assim conseguiu nunca entrar dentro da mina.


### Durante oito anos ali exerceu a sua profissão. Um dos primeiros trabalhos foi fazer a barba a um sinistrado das minas: “Ninguém sabe o que me custou, o que senti dentro de mim, infelizmente muitos outros se seguiram”.


### Naquele tempo havia muitos doentes com silicose. A sinistralidade era grande. Além de barbeiro, também era ajudante dos enfermeiros e várias vezes foi maqueiro: “Hoje talvez tirasse o curso de enfermeiro.” Ajudava também o Capelão dos Mineiros, talvez mais da Beralt, na sua missão pastoral.


### Os mineiros sinistrados eram despojados das suas roupas, objetos (inclusive os gasómetros), material de trabalho, propriedade individual…que eram mais tarde entregues às suas famílias.


### Fechamos este longo encontro, ao fim da tarde, numa Taberna do Tortosendo, onde molhamos postas de bacalhau frito em vários tintos da região. Hoje, festejaríamos o campeonato do Benfica.


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### António Alves Fernandes


### Aldeia de Joanes


### Maio/2015


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