# FUNERAIS  INÉDITOS

- **Autor:** Padre Hugo Martins
- **Data:** 2015-05-29T21:20:40+00:00
- **Categoria:** António Alves Fernandes
- **URL Original:** https://padrehugo.com/blog/funerais-ineditos

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# FUNERAIS  INÉDITOS



### Já assistiu a muitas cenas fúnebres. Ainda criança, na sua aldeia natal arraiana, via quase todos os dias, principalmente no Verão, muitas mães despedirem-se dos seus meninos por falta de condições médicas. Eram terras pintadas de preto onde a mera sobrevivência parecia um capricho de Deus. Carrega na memória os gritos lancinantes de irmãos, de órfãos, de viúvos, de mães que deram à luz a morte.


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### À noite acendiam-se tochas de solidariedade, dor partilhada e religiosidade. Lá estava grande parte da comunidade, rezando e sufragando a alma dos que partiam. O negro era a cor predominante nas almas daquelas gentes. A Fome era – como hoje- uma realidade terrível, e a distribuição de pão durante as exéquias constituía para muitos a único forma de reconfortar o estômago. Não há tragédia maior do que desejar a morte de alguém para poder comer.


### Mais crescido, substituía o seu progenitor, elemento dos órgãos sociais da Irmandade de S. Sebastião, deslocando-se às povoações vizinhas, a fim de participar no funeral dos irmãos. Às vezes, quando o defunto tinha posses, lá trazia um pão de centeio para redimir a sua alma, nas circunstâncias sinónima de estômago.


### Com a sua mãe sacristã de uma capela funerária, e a viver paredes meias com os mortos, assistiu a dezenas e dezenas de discussões, principalmente por causa das heranças, do vil metal, de cadeiras (não as do poder) e de bancos (não os do Espírito Santo mas de madeira). Um dia a cena foi tão forte, que o pobre do morto foi atirado para o chão, como se os vivos o culpassem por ter deixado tão pouco. As autoridades foram chamadas para repor a legalidade, ou seja, o morto no caixão e os familiares de mãos vazias nos bolsos.


### Lembra funerais onde uma filha falta à última homenagem, porque o pai ou a mãe emprestou dinheiro ao irmão.


### Lembra funerais perdidos por familiares que demoraram demasiado tempo no cabeleireiro.


### Lembra, sobretudo, um dos funerais mais insólitos da sua vida.


### Um dia, entrou no Estabelecimento Prisional um jovem acusado de um brutal homicídio. Por “razões que a própria razão desconhece”, espancara até à morte um companheiro de trabalho. Vinha da Zona do Pinhal, e o crime teve fortes repercussões sociais na sua localidade.


### O recluso, ainda jovem e amante da liberdade, viu-se abandonado no silêncio da cela. Mil vezes se sentiu arrependido, chegando inclusive a pedir ao Assistente Religioso, com quem confidenciava, para entregar uma carta ao Pároco da sua aldeia, que por sua vez a leria na Missa, diante de todo o povo. Seria uma forma de pedir publicamente perdão pelo ato cometido. Entendeu-se que não era oportuno, o crime horrendo estava muito vivo na memória das pessoas.


### Na mente do recluso persistia o drama pelo facto de ter assassinado um outro homem, o seu companheiro de jornada. Vieram médicos e psicólogos para tentarem ajudá-lo. Mas a culpa crescia dia-a-dia e o perdão dos conterrâneos nunca chegou. Não resistiu e pôs fim à vida.


### A família, com medo de represálias na sua terra natal, entregou as diligências funerárias à instituição prisional. O Assistente Religioso contatou o Pároco e a Junta de Freguesia, e lá se reuniram as condições para a realização do funeral.


### Finda a missa, onde se ouvia um sussurro barulhento, a urna foi transportada para o cemitério local. O Assistente Religioso Prisional realizava as últimas orações, quando verificou que os ânimos estavam muito exaltados entre a população. O povo não queria o criminoso enterrado junto aos outros habitantes.


### Apesar dos apelos do padre missionário, homem robusto e sem medo, obrigando os presentes a rezar e a meditar no “Pai Nosso”, enfatizando e repetindo várias vezes o “perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, o povo não deixou que o morto criminoso “contaminasse” os familiares da campa vizinha.


### Teve de se aguardar que o coveiro abrisse uma nova cova, num dos cantos do cemitério, longe de todos os outros sepultados - proscrito na vida, proscrito na morte.


### O nosso Homem, que assistiu a tantos funerais, pensou para si: será preciso morrer a aldeia toda para este homem voltar a ter vizinhos.


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### António Alves Fernandes


### Aldeia de Joanes


### Junho/2015
