# Aldeia de Joanes – Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta.

- **Autor:** Padre Hugo Martins
- **Data:** 2015-03-27T19:30:21+00:00
- **Categoria:** António Alves Fernandes
- **URL Original:** https://padrehugo.com/blog/aldeia-de-joanes-recordar-um-sapateiro-teologo-e-poeta

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# Aldeia de Joanes


## Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta.


### Nasceu e viveu na parte histórica e medieval de Aldeia de Joanes, na Travessa do Castelo. Era ali o Centro das Atividades Laborais, Comerciais, Escolares, Autárquicas e Religiosas. Ali estavam em funcionamento quatro oficinas de sapataria - a de António Portugal, António Gonçalves Ribeiro, Álvaro Sampaio e António Gregório da Costa Ribeiro -, uma pequena Moagem de Farinha de Patrocínia Fazendeiro, uma Cestaria de Luís Alberto, duas Tabernas – Mercearias de Manuel Bernardo Campos, e de Alberto Duarte Garcia, (onde funcionou a primeira televisão em Aldeia de Joanes), um Matadouro, Talho e Salsicharia de Joaquim Almeida (enchidos que mais tarde chegaram à mesa do Papa João Paulo II), uma costureira Teresa Maria Delfina e Costa, uma Carpintaria de Álvaro Lambelho, Alfaiataria de Manuel Carlos, a Forja de Adelino Salvado, a Serralharia do Manuel Manique, Oficina de Reparações de António Gonçalves Couto, Duas Barbearias de António Manuel Ramos e Álvaro Lopes Carriço, uma Loja de venda de fruta e legumes de Manuel Bolinha, dois Fornos respetivamente de Maria Rosa Nunes e de Isabel das Dores. A completar este quadro socioeconómico, o funcionamento da Escola Primária, a Junta de Freguesia (Casa de António Vaz Roxo e Manuel Bernardo de Campos) e, logo ali, a Capela de Nossa Senhora do Amparo de grande devoção das gentes de Aldeia de Joanes. Também ali nasceu a ADCRAJ (Associação Cultural Desportiva e Recreativa de Aldeia de Joanes), que ali teve a primeira sede. Mais tarde passou para um edifício com instalações próprias, onde se desenvolvem atividades diversas. Acaba de festejar o aniversário com tinta e um ano de idade.


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### Era filho único e nunca casou, esteve sempre muito ligado à mãe. Uns afirmam que os gatos nunca foram animais da sua estimação, outros juram que tinha um felino que o acompanhava muitas vezes, o certo é que nunca se saberá a verdadeira razão que motivou a alcunha de “ Tó Miau”.


### Era um grande conversador e foi companheiro inseparável, principalmente nas férias, de um jurista e professor de direito - Dr. Orbílio Barbas- seu vizinho e conterrâneo. Sempre que nas suas conversações registavam concordância, o nosso homem afirmava: “acredito, sim senhor.” Tinha sempre uma opinião formada, algo de novo a explicar, por exemplo as calorias necessárias num copo de vinho para moldar as solas dos sapatos.


### Um vizinho que troçava das suas condutas vinícolas, respondeu-lhe, “já tens corcunda nas costas/E barba a desmaiar/Não chegas a ouvir o cuco/Se o Inverno apertar.”


### Nunca casou, mas admirava as belezas femininas e perguntava-lhes, “ ó menina como vai de coração, olhe que eu sou um locutor da vida.”


### Às vezes deixava-se levar pela euforia noite fora e ia para a varanda da sua residência e ali cantava. Não havia vizinho que não conhecesse a letra da cantiga do “Tó Miau”: “a rolinha está chorando/Porque lhe tiraram o ninho/Porque o fizeste tu, ó rola/ Tanto à beira do caminho.” Quando se cansava, informava a vizinhança, “agora vou-me arrecadar.”


### Era um brilhante profissional - do velho fazia novo-, mas infelizmente muitos clientes esqueciam-se de lhe pagar os trabalhos realizados…


### Um dia a mãe, sua companheira afetiva, morreu e o nosso sapateiro ficou só. Era necessário alguém dar-lhe uma mão, uma ajuda social e psicológica. Todos assobiaram para o lado e o nosso Homem desesperou e foi acossado por um doença incurável que o levou à morte.


### No dia do funeral, alguém pediu, no final das exéquias e após exame prévio do celebrante, para ler um texto, lembrando que todos somos culpados pela morte do António “Sapateiro”.


### Este HOMEM, na última festividade em Aldeia de Joanes, em honra de Nossa Senhora do Amparo, de regresso ao arraial nos Olivais, foi interpelado:


### - De onde vem o amigo?


### - Amigo, venho da Missa, na noite de hoje nunca falto.


### - Mas afinal, o que foi lá fazer?


### - Amigo, eu fui lá ouvir as verdades eternas do Evangelho.


### Com uma resposta destas, o nosso Sapateiro Teólogo só pode estar no Reino dos Céus.


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### António Alves Fernandes


### Aldeia de Joanes


### Março/2015


Aldeia de Joanes – Recordar um sapateiro, teólogo, e poeta
